sábado, 7 de julho de 2012

Ideias


         Escrever um texto é como criar um personagem. Ele começa a desenhar-se livremente, se autoconstruindo. Escrever um texto é deixar as ideias dançando no papel, brincando e dando cambalhotas. É deixa-las discutirem entre si e resolverem qual o melhor destino para a caneta.  Vão criando o ambiente, colorindo os objetos, tocando instrumentos e musicando versos.

             Quando alguém escreve um texto, deixa uma parte sua desenvolver-se sozinha, como um filho. São ideias do autor que tomam uma forma própria. Uma vez no papel, as ideias serão redesenhadas a cada vez que um leitor for visita-lo. O texto então terá várias faces, dependendo de quem o interpreta.

           O autor é apenas um veículo usado pelas ideias para chegarem ao papel. Dali em diante elas vão frequentando outros pensamentos, visitando novas mentes, experimentando novas visões. Não são estáticas. Estão em constante movimento e sempre têm muito a dizer.  Vão viajando pelo mundo, espalhando-se, transformando-se. As ideias são almas, palavras são corpos, então as ideias encarnam-se. Seguem o caminho que bem entendem e constroem o mundo do jeito que querem.  Ideias são quase independentes. São senhoras de si e embriagam quem as tomam.

        Ideias são espíritos livres que vagam pelas esquinas enfeitiçando poetas. Ideias são eternas. São metamorfoses ambulantes. 

sábado, 23 de junho de 2012

Fingida Feição do Espelho


Ela se olhou no espelho e começou a tirar todas aquelas máscaras que cobriam seu verdadeiro rosto. A primeira a ser removida foi a vaidade. Era dentre todas, a máscara mais bonita. Vinha num tom vermelho brilhante, mas era também a mais fina, a mais frágil. 
A segunda máscara se chamava egoísmo. Essa era azul-escuro e foi uma das mais difíceis  de ser tirada, tinha o formato exato de seu rosto.  
A cada máscara que ia tirando, as lágrimas iam escorrendo. Se sentia limpa e livre, como jamais sentira antes. Quanto mais se despia, mais profundo ia. Começava a se conhecer de verdade e pela primeira vez, desde que estreou nesta vida.
Por fim, a última máscara que se arriscava a tirar era o orgulho. Essa impregnava seu rosto. Era preta e a mais grossa. O disfarce começava  a derreter, gerando pingos grandes na pia branca do banheiro. Doía muito se ver livre daquilo. Tirava com cuidado e de vagar, para ir se acostumando. Quando conseguiu terminar, seu rosto estava na carne viva. Mas ela estava bela. Bela como nunca, bela de verdade, nua e crua. Pronta para enfrentar os maiores desafios da vida, sem medo, sem apego, sem posse. Estava tão livre, que poderia até voar. E ali, em frente ao espelho, ela encontrou a felicidade. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Realidade Ilusória

Não sei para quem nós apresentamos nosso espetáculo, cenas improváveis, improvisadas.
Fomos nós os nossos próprios espectadores? Provavelmente.
Você ali, fingindo que me convencia e eu convencida e fingida.
Fingi que acreditei  e que você precisava de mim. 
Protagonistas e antagonistas, nos demos as mãos e empurramos com a barriga.
Verdade? Bobagem. 
Me arrependo de não ter vendido ingressos e colocado nossa peça em cartaz.
Lágrimas de frascos, palavras pensadas.
Você me disse o que eu queria ouvir e eu, cheia de satisfação insatisfeita, topei o pacto. 
Procurei interpretar o meu papel com veemência, mas tive que abrir os olhos, afinal.
Me despedi da ilusão que eu ajudei a criar, desci do palco, abandonei as máscaras e o figurino.
Esqueci o texto, cansei das palavras ensaiadas.
Decidi viver minha vida com os pés na realidade. 
Abri os olhos e só agora posso ver que, por causa do orgulho, quase morri 
No espaço entre a loucura e a realidade. 


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mundo Descartável

Naquele dia, cheguei em casa e pluguei meus dedos na tomada. Meus olhos começaram a transmitir o jornal da TV, que noticiava roubos,  fraudes, acidentes e desvios, pessoas em favelas passando fome, a sede no sertão e concentração desleal de renda. Minha boca, sintonizada nas ondas de rádio, gritava músicas descompassadas e desrespeitosas. Meus ouvidos, antenas ligadas, rodavam procurando algum sinal. 
As pessoas da casa procuravam parafusos para consertar os braços e pernas quebrados. Jogavam pela janela latas enferrujadas e comida fast-food. 
Na rua, ouvia-se tiros, como se as pessoas travassem uma 3° Guerra. As balas batiam no peito e amaçavam a lataria brilhante. 

Antenada em tantas coisas ao mesmo tempo, comecei a sentir meu corpo quente, estava ficando cada vez mais carregada negativamente. De súbito, pifei. Nessa hora, não conseguia mais pensar. Aquilo que restara de mim concentrava-se em tentar me manter conectada. As redes sociais começaram a divulgar o meu triste destino de objeto queimado e centenas de pessoas curtiram o fato. Nesse mundo onde todos adoram um desastre.

Triste, meus olhos começavam a derreter. Tudo estava ficando obscuro, meus sentidos se esvaíam, meu corpo estava fundindo. No último suspiro antes de me desligar, olhei para aquela que me fez como numa súplica. Meu coração batia cada vez menos. Será que ousaria me jogar fora? Ou ainda cogitava a possibilidade de me consertar?



domingo, 6 de maio de 2012

Apneia

O relógio, sempre impiedoso, me olha como se me repreendesse. 
Tudo à minha volta é frio, as pessoas parecem não entender o que eu digo.
Escuto vozes que não são daqui, sonho com lugares inexistentes.
Não há pra onde fugir e, mesmo se houvesse, nada seria diferente.
Tudo está fora do lugar. Pessoas, gestos, vozes.
Parada, espero meu peito queimar em sentimentos desejando que o mundo queime junto, mas nada acontece.
Tento estabelecer uma ligação forte comigo mesma, mas é quase impossível.
Minha mente está desconectada do meu corpo e nada posso fazer até que o tempo passe.
Sinto tanto! Eu não queria o mundo desse jeito. 
O meu real desejo é continuar naquele mundo infame.
É apenas uma questão de auto-proteção. 
Sinto falta de respirar, de mente e corpo juntos. Sinto, sinto.
E é uma pena que você não saiba disso. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um conflitante diálogo comigo mesma

Desde que nascemos, somos submetidos à nossa própria opinião e à opinião alheia sobre quem somos. Aos olhos de quem nos vê, somos alguém com certas características, certos gestos e atitudes. Aos nossos olhos somos alguém que, muitas vezes, não é o mesmo alguém idealizado por quem nos observa. Se nossas atitudes dizem muito sobre nós e estão orientadas no espaço em que vivemos, ou seja, estão relacionadas com o mundo que nos cerca, as tomamos por um motivo, causa ou razão que se enquadra na sociedade. Logo, se essas atitudes são "escolhas" pré-existentes no meio em que vivemos, não as tomamos por acaso, o que faz com que não possamos escolher uma maneira de ser ao acaso. - Pensava eu enquanto olhava através da janela do ônibus . O dia acabava de começar e estava ensolarado. 

Com as relações com pessoas e sociedade que nos são bombardeadas logo que tomamos consciência de nós mesmos, deixamos de ser quem ainda não somos para nos tornar fruto da nossa imaginação, da imaginação alheia e da sociedade em que estamos inseridos. E já que vivemos em conjunto e pelo que consta, isso nunca irá mudar, então nunca seremos nós mesmos, puros por natureza, sem influência de um meio externo. - Articulava eu uma explicação para me convencer do "ser ou não ser". Nessa hora, a moça que estava sentada ao meu lado deu sinal para descer do ônibus. Dando licença à jovem, quase deixei fugir o pensamento que me embriagava. Forcei para puxá-lo pelo pé. Com muito custo, consegui me lembrar da última palavra que pensei. 

Ditados por tudo que nos cerca, menos por aquilo que seríamos puramente e nunca seremos, moldamos a sociedade que nos molda e criamos novas personalidades que serão e não serão. Um ciclo vicioso que criamos e que nos cria. - Suspirei eu num alívio misturado com pesar. Pesar, pois tinha acabado de descobrir que era exatamente aquela a verdade de que eu tanto precisava para me convencer. Mas tinha descoberto também que aquela discussão que eu criara era o monstro que me engoliria um tempo mais tarde de tanto pensar sobre ele. Para minha sorte, o ônibus se aproximava do meu ponto de descida e parei de filosofar para me preocupar com o modo que usaria para passar naquele labirinto de pessoas que estava no ônibus. Por fim, desci do automóvel e continuei meu caminho, sendo engolida vagarosamente pelo monstro que eu mesma criei. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Primeiro.

Pri.
Prim.
Primeiro.
Primeiro minuto, primeiro dia, primeiro mês, primeiro ano.
Primeiro século, primeiro milênio.
Primeiro.
Prim.
Pri.
Primeiro lugar, primeiro olhar, primeiro beijo, primeiro amor.
Primeiro toque, primeiro perdão, primeiro choro.
Primeiro.
Prim.
Pri.
Primeiro suspiro, primeiro raciocínio, primeiro soluço, primeiro passo.
Primeiro caso, primeiro laço.
Primeiro.
Prim.
Pri.
Primeiro inverno, primeiro suicídio, primeiro assassino. Primeiro desígnio.
Primeiro.
Prim.
Princípio, meio e Fim.